“Uma das coisas mais desafiadoras que eu já fiz na minha vida […] foi ter feito o trekking até as termas de águas quentes. Jamais imaginei que […] conseguiria realizar uma caminhada de 11 quilômetros, com uma ascensão de quase 800 metros, somando ida e volta em quase 10 horas de trilha. […] Poder realizar isso me trouxe um prazer e uma alegria difíceis de descrever. […] Com muito e muito esforço, dedicação e desafio, a gente consegue transformar a vida em algo que antes parecia pertencer apenas ao campo dos sonhos.” — Helen, 43 anos.

Antes de começar qualquer trilha, é preciso fazer o seu dever de casa. Qual o nível de dificuldade? Que materiais preciso levar? Qual o tempo médio de ida e volta? É preciso fazer um registro prévio?
Foi respondendo a essas perguntas que começamos nossa aventura para o Valle Aguas Calientes de Nevados de Chillán. Por saber que a trilha poderia levar uma média de 8 a 12 horas no percurso de ida e volta, tivemos que nos organizar no dia anterior. Trilhas de alta intensidade como essa demandam uma maior organização e, por isso, preparamos este guia com tudo o que você precisa saber antes de iniciar a trilha.
Dicas para preparação e logística
É fundamental entender que a montanha é um cenário que demanda condições físicas compatíveis e a disponibilidade de recursos como hidratação, alimentação, vestuário adequado, comunicação, entre outros. Com isso em mente, veja como estruturamos nossa logística:

Alimentação Estratégica: Como sabíamos que o esforço seria grande, separamos frutas, preparamos ovos cozidos e levamos algo doce para o caso de sentirmos uma queda de energia. Nós levamos um pedaço de bolo que tínhamos preparado no dia anterior, o que foi um excelente reforço.
Gestão do Tempo: Combinamos a saída entre 6h e 7h da manhã. Em trilhas longas, começar cedo é vital para ter uma margem de segurança e folga no percurso caso ocorra algum imprevisto.
Equipamento Indispensável: Diversos trechos são extremamente escorregadios e o terreno pode ser instável; nessas condições, o calçado adequado com boa tração os bastões de caminhada tornam-se nossos maiores aliados para garantir estabilidade.
Registrando-se no departamento policial
Diversas trilhas de média e alta intensidade necessitam de um registro prévio nos órgãos responsáveis. Portanto, na manhã antes de começarmos nosso percurso, fomos ao posto dos Carabineros de Chile (a polícia local chilena), em Valle Las Trancas, para preencher o formulário de saída. Vale ressaltar que a multa para quem não realiza esse registro é bastante elevada. Além disso, é fundamental notificar o regresso à mesma unidade policial assim que terminar a trilha; essa etapa é obrigatória para que as autoridades saibam que você retornou com segurança e não iniciem um protocolo de busca por engano.

Além do registro físico nos Carabineros, é fundamental que todo trilheiro conheça as regras de segurança e preservação específicas para a região de Chillán. Para garantir que sua aventura seja segura e não cause impacto negativo ao ecossistema, recomendo fortemente a leitura das diretrizes oficiais. Nessas normas, você encontrará detalhes sobre os locais onde o registro é obrigatório, as recomendações de equipamentos conforme a estação do ano e as condutas éticas para a proteção da fauna e flora locais. Estar informado é o primeiro passo para ser um montanhista responsável.
O segundo passo: Iniciando o percurso para o Valle de Aguas Calientes



Toda trilha que nos propomos a fazer requer presença. É preciso prestar atenção onde pisamos: o terreno está firme ou não? Cada passo é um exercício de atenção plena, pois qualquer distração pode resultar em um tropeço. Digo isso com “lugar de fala”, já que esses tropeços aconteceram comigo tanto na ida quanto na volta.
Não sou um expert em montanhismo, e acredito que essa experiência pode ser realizada por qualquer pessoa que tenha um bom condicionamento físico. A subida é o momento de lidar com os limites corporais; parar e respirar ao longo do trajeto é fundamental. Já a descida exige mais do nosso mental: é onde trabalhamos o medo da altura e da inclinação, mas também onde saboreamos a sensação revigorante de poder dizer: — Sim, chegamos lá.
PASSANDO PELAS FUMAROLAS

No caminho para as Águas Calientes, passamos pelas Fumarolas — emissões de vapores e gases que brotam diretamente do solo, como você pode ver na foto ao lado. Elas são um fenômeno natural resultante da atividade vulcânica da região, e o cheiro característico de enxofre nos lembra, a cada passo, que estamos caminhando sobre um terreno vivo.
Durante o trajeto, conseguimos avistar dois vulcões: um inativo e outro ativo. É justamente esse vulcão ativo que permite que a gente desfrute de águas tão cristalinas e quentes durante o nosso momento de relaxar nas poças que se formam do rio.

“A beleza cênica de cada patamar, a cada metro de altura que eu avançava, era sempre mais e mais incrível do que o anterior. A junção de todo o lugar — da vegetação rasteira […] com a parte onde tudo é cinza por causa das rochas vulcânicas — parece algo de outra dimensão, de outro planeta, um verdadeiro cenário de filme. […] Banhar-me nas águas quentes vindas do vulcão também foi algo que ficará marcado em mim para sempre.” — Helen, 43 anos.
— SIM, CHEGAMOS LÁ: o momento de desfrutar das águas térmicas
Depois de uma trilha de quase cinco horas para chegar ao nosso destino, finalmente podemos mergulhar em águas quentes olhando para as montanhas. Agora é deixar que essa sensação de plenitude preencha o corpo, relaxar nessas águas naturais e sentir a correnteza escorrer pelas costas — a recompensa por estar em um dos lugares mais especiais onde já estive.

A volta durou um pouco menos de tempo que a ida, já que o trajeto tinha muito menos subidas. Valle relembrar o que eu disse: mantenha o estado de presença. Com calma no caminho, tudo fica bem.
